20 anos do Acústico MTV Cássia Eller: Viagem à Teresópolis, nova roupagem para um clássico e surgimento de uma estrela.

Existem discos que, além de entrarem para a história da música e se tornarem grandes clássicos, transformam, alavancam e mudam para sempre a carreira de um artista.

Neste 5 de maio de 2021, o Acústico MTV de Cássia Eller completa 20 anos. E é com certeza um exemplo de discos que transformam e eternizam. Isso porque a história de Cássia, uma das principais vozes femininas da música nacional, se divide entre antes e depois do disco.

Há quem diga, inclusive, que o excesso de compromissos, shows, público e pressão sobre a cantora após o lançamento do disco, por conta do grande sucesso, tiveram impacto em sua morte por infarto do miocárdio, em dezembro de 2001, mesmo ano da gravação.

Sim, ela já havia produzido grandes trabalhos. “Cássia Eller”, de 1994, seu terceiro disco, é maravilhoso. Três anos depois, em 1997, lançou “Veneno Antimonotonia”, um álbum apenas com músicas do Cazuza, o qual era muito fã. E com certeza o poeta do rock ficaria orgulhoso.

Em 1999, seu maior trabalho até então. “Com você meu mundo ficaria completo” é um álbum que mescla a essência roqueira de Cássia com um lado mais puxado para o MPB, algo pouco conhecido até então por seu público.

Mas esses discos são assuntos para outra hora. Vamos para 2001 falar sobre o trabalho que alavancou a carreira de Cássia, proporcionando um sucesso estrondoso nunca vivido pela cantora.

Para isso, separei pontos importantes da história desse Acústico MTV: a viagem em Teresópolis, onde a banda ensaiou o repertório; a nova roupagem de um clássico, onde a faixa “Malandragem” ganhou uma outra versão e conquistou o público; e o surgimento de uma estrela, pois o álbum fez a carreira da cantora mudar de patamar.

A viagem à Teresópolis

Em janeiro de 2001, quando soube do convite da MTV para gravar o Acústico, Cássia logo chamou Nando Reis e Luiz Brasil para serem os produtores, já que os três tiveram muito sucesso em “Com você meu mundo ficaria completo”.

Nando sugeriu, então, que toda a banda fosse para um “lugar reservado” para ensaiar o repertório do novo disco. Foi aí que surgiu a ideia de ir para um sítio localizado em Teresópolis, a pouco menos de 100 km do Rio de Janeiro. “É uma clínica de recuperação para drogados. Mas já está desativada. Então tudo bem”, brincava Cássia.

O local era aconchegante e além de estúdio, tinha piscina e campo de futebol. Era tudo que a banda precisava para trabalhar e ainda relaxar. O problema é que a capacidade da energia era muito fraca para o peso dos instrumentos.

Em vários momentos, faltava luz e a banda tinha que parar de ensaiar. Mas, por incrível que pareça, isso fortaleceu o grupo. No escuro, eles ficavam jogando baralho à luz de velas, escutando rádio e bebendo. “Essa alegria que está tendo é positiva para o trabalho. reflete muito na alma dos músicos que estão tocando”, contou Nando, em entrevista para o making-of do álbum.

Foram três semanas juntos e, como todos os integrantes da banda relataram, os bons momentos ali proporcionaram entrosamento e a criação de um grande repertório.

Nova roupagem de um clássico

Entre as principais decisões que aconteceram no sítio, talvez a que mais se destaque é a mudança radical de formato da música “Malandragem”, que já era um de seus principais sucessos, e na nova roupagem, se tornou o grande hit do álbum.

“Em um dia de muita a chuva, a luz acabou, então ficamos jogando buraco e escutando rádio, até que tocou “My Pledge of Love”, do Joe Jeffrey, e foi ouvindo ela que me veio a ideia para o arranjo de “Malandragem”, que eu queria que fosse diferente da versão de estúdio”, contou Nando, em seu canal no YouTube.

De início, a banda relutou na ideia. Porém, o produtor conseguiu convencer os músicos e a nova versão rapidamente tomou gosto do público. Até hoje, é uma das (se não a mais) escutadas do álbum. Composta por Cazuza e Frejat, “Malandragem” é a cara do Acústico MTV da Cássia!

O surgimento de uma estrela

Antes do álbum, Cássia já era uma cantora de sucesso, no entanto, ainda não era vista como uma das principais vozes do cenário nacional. Seus shows recebiam 800 a 1000 espectadores, em média. O lado financeiro também não era dos melhores. No documentário que narra sua história, seu empresário conta que o ano de 1999 fora encerrado com dívidas.

Depois do lançamento do Acústico, tudo mudou. O público rapidamente tomou gosto pelo álbum, e em poucos meses, mais de 500 mil cópias foram vendidas.

Começava então um novo ciclo na trajetória da cantora. Passou a dar várias entrevistas na TV, rádio e portais de internet. Várias faixas bombaram e a turnê do álbum contou com 95 shows entre maio e dezembro, sempre com casa cheia. Teria sido muito mais se não fosse sua trágica morte.

É até hoje o disco de maior sucesso de sua carreira, com mais de um milhão de cópias vendidas. Foi vencedor do Grammy Latino para Melhor Álbum do Rock Brasileiro em 2002 e é considerado um dos 11 melhores Acústicos MTV de todos os tempos, pela revista Rolling Stones.

Cássia deixava de ser “apenas mais uma” para ser uma grande estrela no cenário fonográfico nacional. Mas, tudo durou muito pouco. A cantora faleceu sete meses após o lançamento do álbum. Em entrevista, uma de suas irmãs disse que ela estava muito cansada e trabalhando demais, o que pode ter contribuído para o infarto que sofreu.

Para encerrar o texto com chave de ouro, é importante citar as principais obras (em minha opinião), que compõem esse disco. A começar pelo começo, a introdução é magnífica. Em uma abertura que ninguém esperava, Cássia canta “Non Je Ne Regrette Rien”, de Édith Piaf, em um francês perfeito. Logo em seguida, “Malandragem” faz a cara do disco.

Na quarta faixa, a complicada canção, “Vá morar com o diabo”, do sambista Riachão, Cássia chegou a errar a letra algumas vezes (é possível ver no making-of), mas no fim acertou e é até hoje a mais bela interpretação da canção.

Um pouco mais para frente, apresenta “Luz dos olhos”, maravilhosa canção de Nando Reis, que ele inclusive canta em seus shows até hoje. O produtor do disco também participa ao vivo em “Relicário”, que é hoje a música mais escutada de Cássia no Spotify.

Quase no fim, com uma voz que impressionaria McCartney e Lennon, canta “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, clássico dos Beatles, uma de suas bandas preferidas. Pode ser ‘puxação de sardinha’ do autor deste texto, mas a versão de Cássia só perde para a original!

Por fim, encerra o maior trabalho de sua carreira com “Top top”, um clássico de 1971 dos Mutantes, mostrando todo seu lado roqueiro brasileiro.

Vinte anos depois, esse álbum continua a emocionar a todos que o escutam, e representa muito todo o legado deixado por Cássia Eller.

Existem artistas que lançam uma obra especial, histórica, e, depois, logo em seguida, partem. Acredito que tenha sido o caso deste Acústico MTV. Foi o recado final de uma das maiores vozes que o Brasil já teve.

Viva Cássia! Viva os 20 anos do Acústico MTV!

AUTOR/CRÉDITO: Vinicius Chinellato.

Autor: Neto Rocha

23 anos, e grande entusiasta de uma das coisas mais poderosas inventadas pelo homem, a música.

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