De Rockstar destruído ao suéter de lã: A metamorfose de Eric Clapton.

Eric Clapton é um dos artistas mais interessantes para traçar uma análise de como é possível uma mudança estética e de som tão radical com o passar dos anos sem que se perca relevância e respeito pelo público geral. Mas a pergunta que fica é: Como um dos rockstar mais radicais da era de ouro do Rock virou trilha sonora da seção de produtos veganos de supermercado? Talvez uma busca por propósito, luto e timing mercadológico revele isso.

Quando voltamos para as décadas de 60 e 70, tínhamos um Eric Clapton com uma imagem totalmente diferente, o “Deus” da guitarra como era conhecido, mudou o Blues e Rock com sua técnica e estilo. E como de costume da época, o cigarro nos dedos, as roupas extravagantes, o cabelo longo e bagunçado, um estilo de vida completamente destrutivo com abuso de drogas que fatalmente o levaria a uma morte jovem eram o que definia sua vida.

Um começo de autoconsciência aconteceu na década de 80, uma mistura de amadurecimento pessoal com tentativa de adaptação a uma sonoridade tão característica que rolava naquele período culminaram para um início de mudança. O encontro com Phil Collins que ajudou a ditar o estilo da época, revelou o lado mais melodioso de Eric que rapidamente moldou sua guitarra ao lado de sintetizadores e teclados, investindo pesado em baladas mais românticas, coisa que ele já flertava no final da década anterior. O ápice é seu disco “August” de 1986.

O segundo impacto que mudou a vida de Eric Clapton para sempre foi a morte de seu filho Conor de 1991 que caiu acidentalmente do 53º andar de um prédio em Manhattan. Esse fato devastou Eric Clapton emocionalmente que ao invés de questionar tudo e recorrer ao estilo de vida de sua juventude, decidiu cumprir um propósito de vida. A partir daquele dia, sua missão era estar sóbrio, preservar e honrar a memória de seu filho.

Naquele período, um novo formato de show e gravação estava em alta, o MTV Unplugged, onde a proposta era que artistas se apresentassem num formato “desplugado”, com violões, baixo acústico, entre outros elementos. Foi então que Eric Clapton, agora com seu suéter de lã e sapatos de couro, acerta sua gravação para o formato que tinha tudo para combinar com seu novo estilo de som e nesta apresentação ele apresenta pela primeira vez sua nova composição, “Tears In Heaven”, música extremamente emocionante em homenagem ao seu filho falecido.

O Unplugged de Eric Clapton foi fundamental para a percepção do grande público sobre ele. A história trágica com seu filho, a qualidade musical dessa apresentação, o time de músicos, tudo era perfeito. Agora senhoras que jamais ouviriam “Layla” na versão original, agora se emocionavam com nova versão açucarada e acústica. O resultado? Uma enxurrada de vendas.

A partir daí Eric Clapton ganhou o respeito de todos os lados, mesmo com parte dos roqueiros rejeitando seu novo estilo, boa parte entendeu o contexto e evolução dele como pessoa e artista. E agora uma nova geração que o conhecia, se identificava com sua fase mais sensível. Isso fez com que definitivamente entrasse no hall dos artistas que tocam em cafés, no supermercado, no elevador. E talvez isso não deva ser encarado como um demérito mas sim como um novo começo.

É verdade que não é fácil segurar a saudade da música visceral que Clapton nos entregou na época de Cream e Derek And The Dominos, aquilo mudou os rumos do Rock mas ao mesmo tempo a transição foi real e muito pessoal. E que apesar de apresentar uma discografia errática dos anos 80 até aqui, nós temos bons discos e volta e meia ele revisita o estilo que o consagrou como um herói da música britânica. O fato é o seguinte, a reinvenção tem um preço elevado e Eric Clapton parece disposto e feliz em pagá-lo. Vida longa ao Slowhand!














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Autor: Neto Rocha

28 anos, e grande entusiasta de uma das coisas mais poderosas inventadas pelo homem, a música.