50 anos de ”Imagine”: A monumental sensibilidade de John Lennon.

John Lennon tinha uma sensibilidade ímpar. Poucos compositores na história da música conseguiram passar esse nível de emoção e alma em cada verso como Lennon fazia. Sem contar o fato dele ser um grande intelectual via o mundo de uma maneira muito única. Hoje um dos discos mais sensíveis e emocionantes de todos os tempos está completando exatos 50 anos, vamos celebrar ”Imagine”!

Para esmiuçar essa verdadeira obra de arte, vale lembrar o que rolava na carreira dos Beatles até então. A banda havia se separado oficialmente em 1970, desde então cada integrante seguiu carreira solo com fantásticos discos de estreia, eu sei que Lennon tem aquelas duas aberrações com a Yoko Ono mas se quer valem a menção. O que importa é que em 1970 ele começou pra valer sua carreira solo e lançou o visceral ”Plastic Ono Band”, um disco muito cru e intimista de Lennon que inclusive já ganhou uma resenha de 50 anos aqui no Entre Acordes.

Depois do lançamento desse disco, John parece ter colocado a cabeça no lugar e após usar e abusar de um tratamento chamado ”grito primal” no ano anterior, ele pareceu lidar melhor com seus traumas e na mansão de Tittenhurst Park, se retirou por alguns meses e começou as gravações de seu mais novo disco que acabaria de tornando seu maior sucesso comercial e com justiça, o monumental ”Imagine”.

Para tal missão, Lennon contou com um time de músicos de excelência, o grande George Harrison na guitarra, o tecladista Nicky Hopkins, o baixista Klaus Voormann e os bateristas Alan White e Jim Keltner, além de contar com um dos maiores produtores de todos os tempos, Phil Spector, então pode-se esperar uma super produção, com muitas orquestrações, direcionamentos épicos e excelência, a característica ”Wall Of Sound” que acrescentaria e muito para a música de John Lennon. Eu acredito que se esse disco não tivesse essa produção, ele seguramente seria um disco menor em termos de importância e qualidade.

Para quem é fã de John Lennon e desse disco, vale muito a pena procurar o documentário ”John & Yoko: Above Us Only Sky”, que foi lançado oficialmente e trata em sua maior parte sobre as gravações e bastidores desse disco. Lá vemos toda a dinâmica dos músicos e a importância de Yoko para sua música e vida. Quem quiser saber mais pode ler um artigo que fizemos aqui no Entre Acordes sobre o documentário.

Se em seu disco anterior, Lennon trataria de temas como vida pessoal, ódio e incredulidade, em ”Imagine” ele se apegaria mais aos temas de amor, política e paz. Tanto nas letras, quanto na voz e na sonoridade do disco, com excessão de uma música que vamos comentar mais pra frente. Lennon está muito mais esperançoso e mais sensível nesse disco, sua voz está mais contida porém não menos inspirada, muito pelo contrário, John está dando aula de composição e interpretação musical, é maravilhoso!

Falando um pouco sobre as músicas o disco abre com a maior balada da história da música pop, ”Imagine”, palavras não serão suficientes para eu expressar a importância e meu sentimento por essa música, é o tipo de música que entra num hall das 10 maiores composições pop de todos os tempos. A letra foi composta em meio a um momento de melancolia após a separação dos Beatles, ela fala sobre um apelo de John à paz mundial, num mundo mais unido e sem guerra e que apesar de ser um sonho distante, ele pode ser realizado se cada um fizer sua parte. As orquestrações dão o toque perfeito ao peso filosófico e sentimental da faixa, é tudo muito preciso e de bom gosto. Como curiosidade, Yoko participou ativamente do processo de composição e ajudou muito Lennon a entender qual era o caminho ideal para finalizar a faixa, eu acho muito bonito no documentário mostrando a parte que ela diz que talvez o propósito final deles terem se conhecido fosse para compor ”Imagine”.

Seguindo os destaques, temos ”Crippled Inside”, uma faixa bem mais alto astral e muito bem posicionada no disco, ela traz um ritmo muito interessante. Em seguida temos talvez a faixa que seja a minha favorita de todo o disco, ”Jealous Guy”, uma balada lindíssima e íntima sobre John, uma música que eleva os sentimentos até o céu, uma música simplesmente perfeita, observação importante e que quase ninguém menciona é a performance vocal de John, cada verso é cantado com muito coração e muita sensibilidade, poucas vezes um intérprete teve esse nível de precisão e lirismo. Já ”Gimme Some Truth” é uma paulada, muito idolatrada pelos fãs e que talvez seja a que mais destoa do disco em termos sonoros.

Agora as quatro últimas são verdadeiras obras de arte, ”Oh My Love”, uma das primeiras faixas compostas do disco, muito linda e sensível assim como ”How?” que na minha opinião é uma música subestimada da carreira de John Lennon, uma música tão grandiosa quanto ”Jealous Guy”. Se essas são baladas fofas, ”How Do You Sleep?” é o oposto, a música é um verdadeiro golpe a Paul McCartney que pouco tempo antes fez a música ”Too Many People” que alfinetava sutilmente John e Yoko, que revidaram com essa faixa, ela é um recado direto e doloroso ao nosso querido Paul, vale mencionar que musicalmente é muito boa e conta com um solo de slide muito bem executado por George Harrison. A última faixa do disco é a esperançosa ”Oh Yoko!”, uma balada inocente e muito bonita de John para Yoko, fecha o disco de uma maneira mais alto astral.

A antológica e filosófica capa, dialoga diretamente com o disco. A foto foi tarada por Yoko usando uma câmera Polaroid, eles usaram um efeito criativo onde eles uniriam a foto de John junto a uma foto no céu que foi tirada na mesma hora, lindíssima capa.

O disco ”Imagine” acabou se tornando um dos maiores discos de todos os tempos, seja pela popularidade quanto pela infinita qualidade de seu conteúdo. É uma verdadeira aula de composição, de pluralidade musical e criatividade. Tudo o que o cerca é fantástico, a vibe, a sua história e seu legado, com certeza é um dos discos para se ouvir antes de morrer, um marco histórico na indústria fonográfica, temos um John Lennon no auge, direto ao assunto e sem rodeios. Espero que todo mundo pegue essa belezinha para ouvir no aniversário de 50 anos de seu lançamento!

Autor: Neto Rocha

23 anos, e grande entusiasta de uma das coisas mais poderosas inventadas pelo homem, a música.

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