”American Recordings”: Os discos conceituais de Johnny Cash, se despedindo da vida.

Johnny Cash é uma personalidade bem única da história do Rock N’ Roll. Ele é um dos expoentes da revolução do gênero dos anos 50 e 60, se mostrou um artista com muita personalidade ao longo de sua enorme e admirável carreira. Após a recomendação de um colega seguidor do Entre Acordes, o ”@icaro_scampos”, resolvi falar um pouco sobre a fase de despedida que Cash construiu no fim de sua vida. Vamos adentrar no contexto das gravações dos 6 discos ”American Recordings”.

Essa fase se encontra dentro da discografia de Johnny Cash entre os anos de 1994 e 2010. Foram lançado pelo selo ”American” e produzidos por Rick Rubin. Com sua simplicidade, Johnny Cash, atravessou muitas décadas lançando discos numa forte veia country e se provou um artista com ideais claros e muito em pré-definidos musicalmente.

Porém a década de 1990 chegou, o grunge estava muito em alta, assim como muita coisa que se distanciava bastante do que Johnny Cash fazia, e por alguma razão, aconteceu uma oportunidade de Rick Rubin trabalhar com Johnny e a partir daí a parada mudou drasticamente.

Segue as palavras de Johnny Cash e Rick Rubin;

‘Achei tudo muito improvável. Ele (Rick Rubin) era um hippie consumado, careca na parte de cima da cabeça mas com cabelos até os ombros, uma barba que parecia nunca ter sido aparada (não tinha) e roupas que deixariam um bebum orgulhoso. Nas prioridades de seu selo estavam rap, metal e hard rock: os Red Hot Chili Peppers, os Beastie Boys – música jovem e urbana. Eu já estava cansado de fazer testes com produtores e não estava interessado em ser remodelado para algum número de rock. Embora o homem conhecesse meu trabalho, (…) falava um pouco como Sam Phillips -, não o levei a sério. Ele logo perderia o interesse (…).

‘Eu estava errado. Ele voltou para me ver (…). Comecei a levá-lo a sério.

‘Perguntei como ele faria para me gravar. O que faria de diferente de todo mundo que já tinha tentado?

‘Não vou fazer nada. Você vai fazer. Você vai vir até a minha casa e sentar na sala, pegar um violão e começar a cantar. Em algum momento, se quiser que eu faça isso, vamos ligar um gravador e você vai tocar tudo o que gostaria de gravar, mais as suas canções, mais outras canções que posso sugerir e que você ache que vá fazer um bom trabalho com elas. Você vai cantar todas as músicas que ama e em algum momento vamos encontrar uma canção que nos sinalize que estamos indo no caminho certo. Não estou familiarizado com a música que você ama, mas quero ouvir tudo.’ (*), disse Rubin.

Depois disso a coisa começou a fluir de uma maneira muito natural, foram 9 anos de produção e 6 discos concluídos no total. Um conceito muito bem pré-definido, Johnny Cash aparentemente queria fechar sua carreira com a simplicidade que o acompanhara a vida toda, músicas que o fizeram ser que ele foi, uma espécie de créditos finais à esse espetáculo.

Os discos foram lançados desta seguinte maneira:

  • Johnny Cash – American Recordings.
  • Johnny Cash – American II: Unchained.
  • Johnny Cash – American III: Solitary Man
  • Johnny Cash – American IV: The Man Comes Around 
  • Johnny Cash – American V: A Hundred Highways 
  • Johnny Cash – American VI: Ain’t No Grave

O primeiro disco é bem a pegada que Rubin havia pensado, voz e violão bem simples mas que conta com uma grande faixa ”The Beast In Me”, fantástica. Outra grande composição é Tennessee Stud”, uma faixa que fez bastante sucesso. Esse primeiro disco é bem raíz.

Já no ”American II: Unchained”, Johnny apresentou um disco parecido com o primeiro, mas eu sinto uma vibe um pouco mais otimista e canções um pouco mais dançantes, me parece um Johnny Cash mais solto e livre para desempenhar o que ele acreditava, é um bom disco. O country ainda é muito aparente.

Em ”American III: Solitary Man”, pelo título nos sugere um disco melancólico e pra baixo sonoramente falando. Mas a vibe que o disco transmite é de reflexão, um álbum um pouco mais distante do country e mais voltado ao folk puro, que pra mim é onde a criatividade de Johnny é mais bem aproveitada.

A parada fica mesmo séria em ”American IV: The Man Comes Around”. Notamos nitidamente um homem mais deteriorado fisicamente, até pela sua voz. Mas isso está longe de ser um defeito, muito pelo contrário, Johnny consegue desenvolver um disco sentimental e puro, na minha opinião o melhor de estúdio de toda sua carreira, um disco para ser apreciado, a primeira faixa impacta, a faixa título nos engana parecendo que vamos receber um disco otimista, mas que na verdade é um disco bastante melancólico. A seguinte ”Hurt” se tornou talvez o maior clássico da carreira de Cash, uma faixa interpretada da alma, apesar de ter sido composta pelos Nine Inch Nails, ela parece ter sido feita para ser de Cash, chega a arrepiar só de lembrar, parece ser tudo o que Johnny precisava para se inspirar e tirar de sua alma tudo oque era necessário. O fim estava próximo e a música era sua carta final para se despedir e deixar à posteridade todo o seu sentimento final, ”Hurt” foi esse momento. O disco ainda conta com diversos covers como ”Bridge Over Troubled Water”, ”Personal Jesus” e ”In My Life”.

Infelizmente, o último disco comentado foi o último lançado antes da morte de Johnny, um verdadeiro registro emblemático, uma despedida em grande estilo e alma. Nos anos de 2005 e 2009 foram lançados os últimos discos dessa fase de Cash com Rubin, outros dois discos melancólicos e excelentes, mas que ainda são inferiores ao volume 4, na minha opinião.

O que realmente importa na minha opinião, é a intenção com que esses 6 discos foram gravados, Johnny pareceu encarar a morte com coragem e maturidade, a mesma com que Bowie deve ter se inspirado para a gravação de ”Blackstar”. Ele fez uma verdadeira coleção de confissões divididas em 6 volumes resgatando suas origens e exaltando suas influências da maneira mais sincera e sentimental possível. É impressionante.

Eu sei que muita gente torce o nariz para o estilo da música de Johnny Cash, eu também não sou um grande fã desse estilo, gosto de trabalhos pontuais de sua carreira. Mas vamos combinar, esse homem construiu uma fase final de carreira que qualquer músico gostaria, conseguiu planejar uma despedida de uma maneira única e artisticamente chegou ou ultrapassou o auge de sua carreira. É uma benção poder desfrutar de discos como esse que Johnny nos presenteou. Espero que depois de hoje, você possa dar mais atenção à esse grande fodão que é Johnny Cash!

Autor: Neto Rocha

23 anos. Grande entusiasta de uma das coisas mais poderosas inventadas pelo homem, a música.

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