“Ainda estou vivo”: a autobiografia de Phil Collins

“A música me construiu, mas também me destruiu”, narra Phil Collins em um dos capítulos finais de sua recém lançada autobiografia onde discorre, em uma prosa melancólica, uma série de erros, acertos e lamentos, sendo ora autopunitivo, ora autodepreciativo, mas nunca com um olhar romantizado, maduro o suficiente para reabrir feridas não cicatrizadas e sem medo de as expor, como as ausências constantes na criação dos filhos, não estando presente em momentos mais corriqueiros como uma simples partida de futebol ou dever de casa.

Se o que você espera deste livro é que seja um registro minucioso de idéias de gravações do Genesis, divergências entre os membros ou ficha técnicas elaboradas, devo alertá-lo que pode se decepcionar, o foco aqui é perspectiva de alguém que já tem um acúmulo suficiente de experiência capaz de olhar pra trás e extrair algo disso.

Com uma primeira parte mais lenta e arrastada, conhecemos seus dilemas e percalços até chegar a se tornar, de fato, um baterista. Phil desconstrói a áurea mística que erroneamente se tem ao pensar em nomes de seu calibre, passando por momentos curiosos como a fatídica apresentação no live Aid, ao ser convidado por Robert Plant para uma volta não oficial e primeiro show após a morte de John Bonham.

O show resultou em algo catastrófico e que todos parecem querer esquecer, renegando sua existência até hoje. Phil collins não se demora fazendo rodeios, sendo bastante crítico consigo mesmo nos momentos adequados e isso é uma das melhores características em uma autobiografia que se preze.

Como não poderia deixar de se fazer presente, há passagens sobre sua constante luta contra o alcoolismo, com episódios com uma riqueza de detalhes que há de se imaginar que não foram fáceis de se transpor para as páginas, assim como os relatos de sucessivas turnês que levaram seu casamento à um fim prematuro, acumulando um total de três divórcios.
Repleto de dilemas sobre como se reconciliar com relacionamentos do passado, gerando uma felicidade atual ao passo que olha pra trás com um certo pesar, como na inusitada atitude de receber injeções de cortisona nas cordas vocais quando sofria de algum problema na voz causado por excesso de shows e hábitos inadequados, escolha que lhe permitiu resultados imediatos, mas inúmeros efeitos colaterais posteriores.

Por fim, um mea culpa de alguém que priorizou o trabalho em detrimento de outras coisas nas quais não considerava importantes na época, passando por suas árduas batalhas para conviver com as limitações e não mais poder tocar o instrumento que lhe foi companhia por décadas, mas que, apesar de tudo, soube administrar os momentos de baixa e ainda está vivo pra contar como foi.

Autor: Régis Moura

30 anos, piauiense, ávido ouvinte de música desde que se considera por gente, com interesses que permeiam desde rock nacional, passando pelo bom e velho hard rock, até o heavy metal.

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