Entrevista com Julie Wein – Uma belíssima revelação da música brasileira

Retornando hoje ao nosso quadro de “Entrevistas”, nosso bate papo hoje é com a maravilhosa cantora Julie Wein, uma das maiores revelações da música brasileira dos últimos tempos, que no ano passado, lançou um lindo disco chamado “Infinitos Encontros”, que por sinal, já foi postado por mim nesta página há alguns meses atrás.

Aqui, Julie nos conta sobre sua história, carreira, seu primeiro disco, curiosidades, processos de composição e gravação, planos futuros e etc.

Entre Acordes: Quando começou a sua paixão por música?

Julie Wein: Minha paixão pela música começou por volta dos 4 anos de idade. Lembro de alguns episódios da infância muito marcantes que enxergo como os principais pilares do nascimento de uma paixão pela música. Um deles foi a primeira vez que ouvi Caetano Veloso e Chico Buarque. Eles foram meus primeiros ídolos da vida. Lembro da primeira vez que ouvi uma fita cassete no carro indo para o jardim de infância. Fiquei apaixonada, perguntei quem era. Minha mãe falou: o lado A da fita é Caetano, o lado B é Chico. A partir desse dia, eu só ia para a escola se fosse ouvindo o lado A e voltasse ouvindo o lado B, diariamente. Certa vez pediram um trabalho na escola sobre ídolos e fãs, conceitos que eu ainda nem entendia direito o que era. Quando me explicaram, escolhi Chico e Caetano. A professora pensou que minha mãe tinha feito o trabalho (risos).

Entre Acordes: Quando despertou o desejo de fazer da música algo de carreira profissional?

Julie Wein: Eu lembro de ter o desejo de ser cantora desde muito pequena, mas a decisão e a determinação de fazer da música uma carreira profissional veio com 21 anos. Quando eu estava no meio da faculdade de Biofísica, percebi que não poderia ser feliz sendo ‘somente’ cientista, algo estava faltando para eu me sentir completa. Quando entendi que esse ‘algo’ era a carreira artística, tudo passou a fazer sentido.

Entre Acordes: Quais seriam suas maiores influências na música?

Julie Wein: Eu diria que minhas maiores influências na música são Elis Regina, Marisa Monte, Leila Pinheiro, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Dolores Duran, Joyce, e Milton Nascimento.

Entre Acordes: Falando sobre seu primeiro álbum “Infinitos Encontros”, fiquei extremamente encantado com o disco. A impressão que me deu é que estava diante de uma obra clássica da música brasileira. Como foi o processo de composição e gravação? Onde o álbum foi gravado?

Julie Wein: O processo de composição foi muito espontâneo. Quando comecei a compor as músicas, não pensava em juntá-las em um disco. Na verdade, o projeto do álbum surgiu muito antes, antes mesmo de eu começar a compor. A ideia inicial era fazer um disco de intérprete. Foi somente depois de ver as obras prontas que entendi que elas formavam um conjunto, que deveriam estar no mesmo disco e que meu verdadeiro desejo era fazer um primeiro álbum inteiramente autoral. A gravação do álbum foi um processo muito gostoso, gravamos no Estúdio Frigideira, aqui no Rio de Janeiro, comandado pelo Gui Marques, que também mixou o álbum. É um excelente estúdio e um espaço super aconchegante. O processo de gravação começou com a gravação dos pianos e voz guia. Em seguida foram gravadas de cada vez as percussões, baixo acústico e violão. Então, os sopros e cordas. E por último a voz. As cordas foram gravadas em Curitiba no Estúdio Gramofone, do Álvaro Ramos, pois gravei com o quarteto de cordas do meu pai, que é radicado lá.

Entre Acordes: Os primeiros singles lançados foram “Beiral da Porta” e “Tentei Disso e Tudo Mais”. Teve algum motivo especial pela escolha destas duas faixas?

Julie Wein: Essas duas faixas formam, junto com ‘Valsa em Sim’, uma trilogia. São três músicas que versam sobre o mesmo amor. Dois episódios da trilogia foram lançados como singles e o terceiro, junto com o disco. A ordem em que foram compostas é ‘Tentei Disso e Tudo Mais’, ‘Beiral da Porta’ e por último ‘Valsa em Sim’.

Entre Acordes: Ouvindo o álbum, percebi que você é uma exímia pianista! Diria que é o seu instrumento principal? Suas músicas são sempre compostas no piano?

Julie Wein: Obrigada! Sim, é meu instrumento principal e minhas músicas são sempre compostas ao piano. Comecei a estudar piano quando criança, como parte de minha educação musical, considero que foi uma fase muito importante. Mais tarde, quando iniciei minha carreira de cantora, resgatei o piano com o objetivo de tirar meus tons e me acompanhar. A composição veio como uma surpresa e consequência natural do contato com o instrumento. Acho o piano um excelente instrumento para compor e muito visual. Se meu instrumento principal fosse outro, possivelmente minhas composições seriam diferentes.

Entre Acordes: Algo que me encantou muito também são os arranjos de cordas, muito lindos! Como foram trabalhados no disco?

Julie Wein: Os arranjos de corda são do Victor Ribeiro, produtor musical do disco. Eles foram trabalhados em cima do meu piano já gravado. Então, Victor escreveu as cordas em cima do piano. No Beijo da Noite, o arranjo de cordas foi trabalhado já em cima da voz do Ed Motta. Ed gravou a voz, fez uns contracantos e improvisos. E, como o arranjo de cordas foi escrito depois, o arranjo segue algumas das frases vocais improvisadas pelo Ed.

Entre Acordes: Fale um pouco sobre os músicos que trabalharam no álbum!

Julie Wein: Recebi muitos músicos maravilhosos nesse álbum. A escolha da banda foi um diálogo entre mim e Victor e fiquei muito feliz com o resultado. Dentre os músicos que participaram estão Marco Lobo, que eu havia conhecido na infância (quando ele tocava com o Bituca), Pedro Franco, amigo ao lado de quem estreei minha carreira de intérprete no Rio, Marcelo Caldi, com quem estudei acordeom, Jorge Helder, músico convidado pelo Victor com um grande trabalho na MPB e outros músicos incríveis… Tive também a alegria de receber a participação de músicos da minha família, como meu pai (Romildo Weingartner) e minha madrasta (Juliane Weingartner).

Foto: registros do processo de gravação com músicos e equipe.

Entre Acordes: Na faixa “Beijo da Noite”, temos um lindo dueto seu com Ed Motta. Como foi trabalhar com ele e como surgiu essa oportunidade?

Julie Wein: Trabalhar com o Ed foi muito emocionante. Ed é um grande nome da nossa música, muito culto e generoso. A oportunidade de trabalhar com ele surgiu de forma espontânea através de uma cadeia de eventos que vou tentar resumir aqui. Basicamente, a história foi assim: o primo (Márcio Campos) do meu padrasto é muito amigo da Edna (esposa do Ed). Um dia o Márcio levou a Edna na minha casa para conhecer. Lembro que toquei algumas músicas autorais e ela gostou, tanto que gravou no celular e enviou ao Ed. Ele também gostou a passou me seguir no Instagram e assim começamos a amizade, mas a ideia de convidá-lo para gravar foi da minha mãe, pois acho que eu mesma não teria coragem (risos).

Da esquerda para a direita: Gui Marques, Julie Wein, Ed Motta e Victor Ribeiro após gravação de “Beijo da Noite”. Foto: Maria Carolina Werneck.

Entre Acordes: Em “Mar Demais”, temos uma linda parte em que se ouve um coral de vozes infantis que casam perfeitamente com a música. Como surgiu essa ideia?

Julie Wein: O coro infantil é formado por minhas aluninhas de canto, muito dedicadas e talentosas, Clara Guimarães, Laura Leoni e Olivia Dias, de 9 anos e pela Martina Böhler Rodrigues, de 3 anos, filha da Carla Böhler e Gui Rodrigues que dirigiu meu clipe, ‘Beiral da Porta’. O coral de vozes infantis nesse disco é muito precioso para mim, pois amo essas meninas. A ideia surgiu de uma conversa entre mim e o músico Mario da Silva. Todas elas têm famílias com artistas/músicos e, portanto, muito contato com esse universo. Acredito que elas podem ter um lindo futuro na música, se desejarem seguir esse caminho.

Da esquerda para a direita: Gui Marques, Julie Wein, Ed Motta e Victor Ribeiro após gravação de “Beijo da Noite”. Foto: Maria Carolina Werneck.

Entre Acordes: Quais outras influências artísticas além da música você possui no seu trabalho?

Julie Wein: Considero o teatro, a dança e o cinema minhas principais influências artísticas além da música. No teatro fiz cursos com Clarisse Abujamra, Luis Melo e Anderson Cidade, estudei roteiro para cinema com Luciano Coelho e história do cinema com Tom Lisboa. Na dança estudei consciência do movimento com Rocio Infante e dança de salão em diferentes escolas de dança. Acredito que todos esses cursos e minha atual vivência e atuação profissional como atriz em peças de teatro e musicais influenciaram e influenciam muito minha carreira musical. Além disso, a grande maioria das pessoas que me rodeavam na infância/adolescência também eram artistas, dentre elas parentes, agregados da família e amigos dos meus pais. O mundo artístico era basicamente o que eu conhecia como referência e considero que essa vivência influenciou muito meu trabalho na música.

Entre Acordes: Poderia citar três discos que moldaram e influenciaram seu gosto e sua música?

Julie Wein: Dentre os discos que moldaram e influenciaram meu gosto e minha música estão: “O Grande Circo Místico”, que foi um álbum que marcou minha infância. Foi um dos CDs que mais ouvi e que certamente impactou e influenciou na escolha por ser artista, em compor e na minha relação com a música. Outro CD que me marcou muito foi “Livro” de Caetano Veloso. Lembro que no Natal de 1997 (eu tinha 6 anos), ganhei esse disco. Tinha acabado de ser lançado, foi o melhor presente de Natal, ouvi muito esse álbum e adorava ler a ficha técnica e brincar de casinha com aquele encarte colorido. Um outro disco que foi muito importante para moldar meu gosto musical foi “Pietá” do Milton Nascimento. Algumas músicas desse álbum foram compostas em um primeiro momento como versões instrumentais e foram coreografadas, então elas ocupam um lugar muito afetivo na minha memória musical.

Entre Acordes: Como você enxerga a cena musical brasileira atual?

Julie Wein: Considero a cena musical brasileira atual extremamente diversificada. Temos ótimos e muitos artistas, fazendo música bem produzida. Hoje temos música para todos os gostos. Considero que parte desse cenário brasileiro atual abrange uma música alinhada com os clássicos da música brasileira e a MPB tradicional. Temos público para todos os tipos de músicas e canções. O cenário sempre vem construído de uma história.

Entre Acordes: E para finalizar, quais os seus planos futuros?

Julie Wein: Pretendo fazer muitos shows desse CD. Ainda não fiz o show oficial de lançamento do disco, por conta da pandemia do COVID. Mas assim que for possível, meu plano é fazer o show de lançamento e então uma turnê do álbum pelo Brasil e outra no Exterior. Tenho planos também de gravar o próximo álbum, já comecei a compor as músicas.

A equipe do “Entre Acordes” agradece imensamente a disponibilidade e a gentileza de Julie em nos conceder a oportunidade de conduzirmos esta entrevista. Desejamos sucesso em sua vida e carreira!

Site oficial Julie Wein: https://www.juliewein.com/

Facebook oficial: https://m.facebook.com/profile.php?id=431591470363700&ref=content_filter

Instagram oficial: https://instagram.com/juliewein?igshid=16o0j2op9dopu

Abaixo, todos os lançamentos oficiais de Julie Wein até o presente momento:

Primeiro single: “Beiral da Porta”

Segundo single: “Tentei Disso e Tudo Mais”

Primeiro álbum: “Infinitos Encontros”

Autor: Felipe Silva

28 anos, paulista, corinthiano, e o mais importante, consumidor compulsivo de música! Rock, Soul, Funk, Blues, Jazz, MPB, que a música boa seja exaltada independente de gênero. God bless you all.

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