“We Are Sent Here By History” – A evolução do AfroJazz futurista de Shabaka Hutchings

É incrível como a música negra mais de raiz vem atravessando por uma espécie de revival de forma excelente nos últimos 10, 15 anos. A quantidade considerável de grandes e novas bandas/artistas que surgiram em mais variados gêneros como o Soul, Funk, Blues e Jazz é de se impressionar.

O próprio Jazz durante esse período, revelou músicos excepcionais que chegaram e permanecem fazendo trabalhos sensacionais. Um belo exemplo disso pode ser encontrado na Grã-Bretanha, onde um brilhante saxofonista tenor e clarinetista chamado Shabaka Hutchings, vem construindo sua carreira de forma muito digna, explorando o gênero com muita qualidade e impacto por intermédio de diferentes conjuntos e projetos como “Sons Of Kemet”, “The Comet Is Coming” e “Shabaka and the Ancestors”, e já há algum tempo ele tem sido muito  bem sucedido em conciliar tudo isso. Com os the Ancestors, ele se une a um grupo de músicos sul-africanos, e muito graças a isso, ele é capaz de testar experimentações num Jazz mais espiritual em uma linguagem musical única e historicamente cultivada.

Agora em 2020, Shabaka retoma o projeto com um novo disco, batizado de “We Are Sent Here By History”. Ao lado de uma banda formada por Siyabonga Mthembu (vocais), Mthunzi Mvubu (saxofone), Nduduzo Makhathini e Mandla Mlangeni (trompete), Nduduzo Makhathini e Thandi Ntuli (piano), Ariel Zamonsky (baixo), Tumi Mogorosuss (percussão e bateria), o músico traz uma aula incrível de musicalidade que se encaixam dentro do estado atual do Jazz espiritual. Com base nos ritmos dos dois percussionistas, os saxofones criam melodias flutuantes acompanhadas por teclados e pianos. Os grandes destaques ficam para o primeiro tema do álbum, “They Who Must Die”, que inaugura os trabalhos trazendo uma forte lembrança de Sons of Kemet (pelo menos, foi essa impressão que tive). “You’ve Been Called”, com uma vibe meio espacial, letras apocalípticas e um piano entrando rasgando de forma dilacerante e “We Will Work” (On Redefining Manhood) traz um clarinete lindo e viajante, que nos dá a sensação de que seremos abraçados calorosamente pela música, para nos mostrar o caminho para a luz.

“We Are Sent Here By History” é um belíssimo registro que une o Jazz com a tradição africana de forma genial. Uma experiência fantástica que proporciona um turbilhão de sons e um caldeirão sonoro que borbulha criatividade. O fato de ter sido lançado no início da pandemia da Covid-19 quase parece uma ironia dramática: é um disco que fala abertamente sobre o apocalipse, tornando-se uma verdadeira cápsula do tempo sônica que nos fazem refletir em falhas que levaram ao nosso próprio declínio. Para muitos que ainda duvidavam se o Jazz ainda poderia fornecer algum tipo de função relevante para a comunidade afro-americana ou se desistiu completamente dessa abordagem apenas para deixá-la no Hip Hop, “We Are Sent Here By History” se faz uma obra mais que necessária na atualidade, provando que ainda existem músicos formidáveis que estão dispostos a manter o fogo político e espiritual do gênero dos tempos de outrora.

Autor: Felipe Silva

28 anos, paulista, corinthiano, e o mais importante, consumidor compulsivo de música! Rock, Soul, Funk, Blues, Jazz, MPB, que a música boa seja exaltada independente de gênero. God bless you all.

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