Os 30 anos de “O Papa é pop”: o maior sucesso comercial do Engenheiros do Hawaii

 

Durante as décadas de 80 e 90, era comum uma certa resistência da crítica e até mesmo um preconceito escancarado quando se falava em Engenheiros do Hawaii, seja pelas letras de Humberto Gessinger, repletas de citações literárias que partiam de Sartre ou Albert Camus, consideradas pretensiosas, ou apenas aversão por não ser mais uma banda do eixo dominante do Rio-São Paulo ou Brasília, algo envolvendo a áurea dos gaúchos parecia causar um relativo incômodo. Com um árduo início, a conquista por respeito veio aos poucos; distantes da cena onde tudo parecia acontecer, sem amigos influentes, conhecidos de gravadoras, totalmente outsiders, todos esses fatores pareciam influenciar.

Se na estreia com “Longe demais das capitais” o respeito não veio de forma instantânea e imediata, no segundo, “A revolta dos Dândis”, a banda foi construindo uma sólida discografia e felizmente isso foi mudando a passos lentos. Em 1990 era a vez de, com “O Papa é pop”, a banda lançar seu salto mais ambicioso, partindo de influências diversas, sobretudo o rock progressivo inglês, com o rush exercendo enorme influência em Humberto, tanto no teclado, no baixo ou no conceito de power trio. Uma das faixas que ajudou a popularizar o disco é a versão de “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones”, gravada pela banda Os incríveis em 1967, mas que tem sua versão original italiana lançada um ano antes, a aposta foi certeira e a música instantaneamente se torna um dos maiores hits da banda, lembrada até hoje.  

Em “O Papa é pop” é notável que ouvimos uma banda se tornando mais ambiciosa, optando por ousar em composições mais complexas que as dos trabalhos anteriores, seja na faixa de abertura em “Exército de um homem só”, claro exemplo do cuidado que a banda vai dar as faixas seguintes ou em “Anoiteceu em Porto Alegre”, a favorita de muitos, com sua extensa letra com direito a citações diretas de Pink Floyd “The sun is the same in the relative way, but you’re older” e Beatles, com “Here comes the sun” e uma das melhores linhas de baixo de Gessinger. Por falar no instrumento que Gessinger domina tão bem, já começa o destaque na forte introdução de ”A violência travestida faz seu Trottoir”, beirando seus quase 7 minutos de duração, assim como “Anoiteceu”, são alguns exemplos de como o caminho da banda destoava das escolhas mais retas e tradicionais que a maioria das bandas do país vinham executando.

 

Com a formação clássica Gessinger, Licks e Maltz, clamada por muitos ate hoje, não é à toa que “O Papa é pop” segue como o disco mais vendido da história do grupo, seja nas músicas mais memoráveis ou pelas excelentes lado B. Um dos melhores registros de uma banda que, apesar da árdua resistência, conquistou o país e não precisa mais provar nada pra ninguém.

 

 

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Autor: Régis Moura

30 anos, piauiense, ávido ouvinte de música desde que se considera por gente, com interesses que permeiam desde rock nacional, passando pelo bom e velho hard rock, até o heavy metal.

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