A Perda da Inocência do Marillion – 35 Anos de “Misplaced Childhood”

Da enxurrada de bandas emergentes da cena Neo-Prog no início dos anos 80, o Marillion sempre se destacou. Apesar das incessantes injustas comparações com o Genesis, eles fizeram seu nome com a incrível sequência da estreia “Script For A Jester’s Tear” (1983) e “Fugazi” (1984), mas ainda lhes faltava uma grande obra-prima conceitual para serem considerados verdadeiros DEUSES do Prog.

A inspiração veio numa longa viagem de ácido do vocalista Fish, com contornos fortemente autobiográficos que lidam, principalmente, com a perda da inocência. Após alguns meses no lendário Hansa Tonstudio (sim, aquele da Trilogia de Berlim), a banda traz ao mundo sua obra-prima, que atingiu o mais alto escalão do Rock Progressivo. Esse marco chamado “Misplaced Childhood” completa hoje 35 anos!

Os sintetizadores um tanto fantasiosos de “Pseudo Silk Kimono”, que, sem nenhum tipo de pausa, já que o álbum é composto por uma grande massa sonora em cada lado, emenda simplesmente nos dois maiores sucessos da carreira da banda. Primeiro, a balada de mais puro coração partido “Kayleigh” que é uma das canções mais marcantes dos anos 80, e então a essencialmente nostálgica “Lavender” que, sem nenhum exagero, figura entre os grandes hinos do Prog. A primeira metade ainda tem o épico em 5 atos de “Bitter Suite” e “Heart Of Lothian”, com uma performance teatral e espetacular de Fish que, apesar de eu evitar essa comparação, é impossível não se lembrar de Peter Gabriel!

O lado B já nos recebe em outro tom, com a sequência matadora de “Waterhole (Expresso Bongo)” e “Lords Of The Backstage”, com todas as passagens intrincadas e tempos complexos, num riff hipnótico de Steve Rothery, além da química sensacional da cozinha de Pete Trewavas/Ian Mosley. É na incrível suíte “Blind Curve” que a banda consegue encapsular toda a grandeza do álbum em uma só peça, de uma grandeza e primazia instrumental de dar inveja, nas linhas de guitarra simplesmente divinas de Rothery. A dobradinha final “Childhood’s End” e “White Feather” finaliza a obra, apesar de tudo, num tom otimista. Afinal, “You can’t steal our hearts away”!

O maior êxito comercial da história do Marillion, “Misplaced Childhood” estreou direto no topo das paradas britânicas, e não saiu de lá por um bom tempo. De certa forma, foi também a perda da inocência para a própria banda, que se viu no estrelato absoluto em tão pouco tempo. Apesar do imenso sucesso, essas tensões ainda pipocariam no futuro, mas, por enquanto, celebremos os 35 anos dessa pedra fundamental do Prog oitentista!

Autor: Caio Braguin

16 anos, baterista, aficionado por música (e todas as formas de arte) desde o berço. Música é minha vida!

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