A linha tênue entre a arte e a incompreensão: 50 anos do disco mais famoso do Amon Düül

Uma das principais características do kraut-rock é servir como resposta tardia aos efeitos da II Guerra Mundial de uma Alemanha que estava em plena reconstrução após todos os desastres do sangrento conflito. Diversas comunidades, na tentativa de se reerguer, mesmo com recursos ainda parcos, se utilizavam muito do empirismo social, ou seja, diversas experimentações fora do comum para trazer a Alemanha de volta ao seu fluxo normal.

É justamente neste contexto que surgiram diversas bandas que aplicavam este empirismo, só que musical; a mistura do Rock com o progressivo, com elementos eletrônicos, de música concreta e avant-guard etc. Uma verdadeira salada mista de estilos e que rendeu algumas boas bandas como Can, Tangerine Dream, Faust, Neu! entre outras. Falaremos agora da que particularmente mais me atrai, e que hoje seu disco mais famoso completa exatamente 50 anos. Estou falando do AMON DÜÜL e do álbum chamado YETI.

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O nome do grupo é até hoje uma grande confusão, já que, após o lançamento dos dois primeiros discos, foi adicionado o número II ao nome do grupo, com uma parte dos integrantes mudando para Londres e mantendo o nome Amon Düül. A outra parte da banda continuou na Alemanha e passou a se chamar Amon Düül II, a fim de manter um foco mais musical e materializar as muitas ideias sonoras em algo mais coeso e evitar comparações com o Rock britânico e americano.

Musicalmente falando, quando o rock progressivo ainda estava engatinhando e não era tão citado como um gênero diferenciado, o Amon Düül II já misturava com o Rock passagens instrumentais complicadas, elementos da música eletrônica com o free-jazz; o improviso era a grande ferramenta do grupo, tendo em vista que a faixa título possui 18 minutos e é fruto de uma longa Jam experimental dentro do estúdio, que criava um som sujo, psicodélico e caótico, mas ao mesmo tempo muito bem tocado.

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“Halluzination Guillotine” possui um instrumental de fazer qualquer um ficar de cabeça para baixo; influências da música oriental também podem ser notadas em “Flash-Coloured Anti-Aircraft Alarm”, música esta que cria um ambiente altamente distorcido, como se o ouvinte estivesse apreciando uma pintura surrealista. “Archangel Thunderbird” destaca a voz empedrada de Renate Knaup um dos líderes do grupo que atinge altas notas vocais, enquanto riffs matadores de guitarra dão o contorno apocalíptico que formam a atmosfera obscura do álbum. A mesma sensação espantosa e surreal persiste por todo o disco, fazendo de Yeti uma obra sofisticada e altamente difícil de albergar.

Amon Düül pode soar muito complicado e confuso nas primeiras audições, talvez você nem consiga entrar em sintonia com tamanha complexidade de estilos e climas pesados, porém, se conseguir conectar todas as ondas em seu devido lugar a recompensa será enorme tamanho lirismo da banda. Vale a pena arriscar!

A text by @lukaspiloto7twister

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Autor: Luc Rhoads

Um grande apaixonado por música e aventuras. Carioca, estudante de Educação Física, professor de inglês e vascaíno doente.

Nenhum pensamento

  1. Texto fantástico Lucas! O Amon Duul II é um exemplo de referência da contra cultura alemã em um período em que o país sofria da falta de identidade cultural e na música não era diferente. Amon Duul era uma comunidade hippie que tentava combater o status quo, conservador toda vida e buscava na literatura, na estética e, logo depois na música a forma para reverberar a sua mensagem. E “Yeti” é foda! Um disco incompreendido e que mostra a fase áurea do krautrock que tanto amo. Era a fase de transição entre a psicodelia, experimentalismo mesclado a improvisações com um embrionário progressivo que já fazia um relativo sucesso na Inglaterra. Um clássico obscuro!!

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