Um Borrão de Amor e Um Pouco de Ilusão – 50 Anos de “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”

As portas de entrada ficam, invariavelmente, marcadas em nossa memória. Minha jornada como grande entusiasta da Música Brasileira teve um marco zero não menos do que sensacional: Os Mutantes. Afinal, são os “Nossos Beatles”, e assim como eles, causaram um redemoinho irreversível em minha mente.

Enquanto avançava nessa lendária discografia, percebi um grande salto em “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado”. Deixando um pouco de lado suas origens tropicalistas, Os Mutantes concebem uma verdadeira obra-prima, inventiva, psicodélica, e que os consolida, definitivamente, como a maior banda da história de nosso país. Esse patrimônio da nossa música completa hoje 50 anos!

O álbum é o primeiro a efetivar a formação com Liminha no baixo e Dinho Leme na bateria, além do trio central de Sérgio-Rita-Arnaldo. E, bem, o faz com maestria! A introdução com a clássica faixa-título “Ando Meio Desligado” já nos arrebata com um groove à la Sly & The Family Stone (santo Órgão Hammond!), e uma suposta inocência (que, olhando mais a fundo, é a mais pura subversão). Já o Rock circense de “Quem Tem Medo de Brincar de Amor”, com o bom humor que lhes é habitual, faz uma divertidíssima sátira americanizada (numa performance impagável de Rita).

“Ave, Lúcifer” quebra o tom leve do disco, numa densa e quase profana peça psicodélica, recheada de brilhantes arranjos do maestro Rogério Duprat. Mas, em contrapartida, a belíssima balada “Desculpe, Babe”, com uma das melodias mais pegajosas da banda, acaricia com doçura nossos ouvidos.

Esse senso de não se levar tão a sério, aliado à absurda habilidade de invenção do grupo, cria momentos sensacionais, como o Doo-wop de “Hey Boy”, ou a hilária versão de “Chão de Estrelas” de Sílvio Caldas, que muito deve ter ultrajado os mais puristas e caretas à época, com seus inúmeros efeitos psicodélicos (o que esses três faziam no estúdio era mágico!).

Em momentos intensos, como a porradaria bluesística “Meu Refrigerador Não Funciona”, onde Rita encarna a Janis Joplin, numa jam lotada de solos alucinantes, ou “Jogo De Calçada”, com uma linha de guitarra magistral de Sérgio (Baião-Rock?), a banda exemplifica o Rock ‘n’ Roll Setentista. E é nessa vibração que a percussiva instrumental “Oh! Mulher Infiel”, uma porrada altamente distorcida, encerra esse maravilhoso álbum.

50 Anos depois, o poder revolucionário de “A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado” permanece intacto. E, aos marinheiros de primeira viagem, garanto que mal sentirão seus pés no chão com a experiência!

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Autor: Caio Braguin

16 anos, baterista, aficionado por música (e todas as formas de arte) desde o berço. Música é minha vida!

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