Uma grande (e bela) jornada pelas linhas do tempo.

Um dos bons representantes do Rock Progressivo atual sem dúvida nenhuma é o grupo inglês Big Big Train que, apesar do nome bizarro, tem demonstrado muita competência para caminhar pelo estilo. Desde a sua estreia no disco Goodbye To The Age Of Steam (1994) até hoje, já são 12 discos lançados, tendo o seu último saído recentemente, em 2019, e é justamente sobre ele que falaremos agora.

Grand Tour mantém o nível de seus predecessores Folklore (2016) – um dos melhores discos de Prog das últimas duas décadas – e Grimspound (2017). Um Progressivo cheio de nuances interessantes, interlúdios, passagens instrumentais complexas e misturas com outros gêneros como o Folk e o Jazz Rock por exemplo.

Banda liderada pelo multi-instrumentista Greg Spawton, conta também com o baterista Nick D’Virgilio (Ex Spock’s Beard) em sua grande formação; ao todo são 7 músicos que compõem a banda. Mas não se engane achando que isto é supérfluo, pois todos têm a sua colaboração nas composições e são peças fundamentais para o funcionamento desta bela engrenagem de Rock Progressivo contemporâneo.

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O disco, como há de ser no Prog, é conceitual, baseado nos séculos XVII / XVIII, em que jovens ingleses ricos fizeram uma viagem pela Europa para ganhar exposição ao legado cultural do Império Romano, Grécia Antiga etc, como parte de sua educação aristocrática. Portanto, as músicas lidam com a exploração da ciência e da arte, ambas partes essenciais de nossa humanidade, muitas vezes aprimoradas pela ampliação de horizontes que acompanham as viagens. Então, partimos de Platão, por volta de 400 aC, para as naves espaciais Voyager do final do século 20, antes de retornar ao campo inglês, como os viajantes. Uma viagem total!!!

Falando um pouco sobreas as canções; aviso logo que não é um disco para fã de primeira viagem. Quase 1h15 de jornada através de suas belas e bem harmoniosas melodias pode fazer você se cansar um pouco se não estiver habituado a este tipo de som. O disco abre com ”Novum Organum” (só pelo título você já consegue imaginar o que vem a seguir).

A segunda música, “Alive”, tem uma vida mais longa e alegre – a introdução parece conter um trecho de “Watcher of the Skies”, do Genesis. “The Florentine” (uma música sobre Leonardo Da Vinci) começa com belos acordes de violão e vai ficando mais dramático com a profundidade do violino, sons incríveis de sintetizadores e um solo de guitarra muito bem elaborado por Dave Gregory.

“Roman Stone” é um épico de várias partes, com mais de 14 minutos de duração. O violino aprofunda o tom acústico. Vocais de apoio formando um coral ; o violão e a percussão dando um peso a música e fazendo o contraste com a flauta – Ian Anderson deve ter curtido – conectam as peças do quebra-cabeça de uma seção instrumental muito bem executada. Espetacular!

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“Pantheon” funde a matriz de guitarra do King Crimson com violino jazzístico, flauta e um som de mellotron. É uma mistura instrumental de prog rock ‘n’ roll. “Theodora in Green and Gold” é uma música dramática e confusa, com letras que encontram coisas literárias, mitológicas e históricas. São esses tipos de viagens que fazem do Prog às vezes um gênero de difícil digestão se não estiver imerso em sua bolha, pois a loucura é tamanha que chega a dar um nó na cabeça rs.

Porém, se bem assimilado, o nó é facilmente desatado, ainda mais quando nos deparamos com mais dois épicos de 14 minutos que nos fazem ficar boquiabertos. “Ariel” é lento, demorado e linear. A música é cheia de passagens instrumentais delicadas e suaves, como se fossem diamantes sendo lentamente lapidados. Em seguida, “Voyager” uma música mais densa e um pouco mais pesada que a anterior, mas que ainda sim mantém os arranjos e as melodias como um pincel deslizando sobre uma tela em branco.  E então, “Homecoming” conclui um álbum de viagens. Este é um traço final do pincel. É um belo fim, como se fosse a calmaria depois da tempestade.

Agora, como foi supracitado, Grand Tour está permeado de referências literárias, históricas e mitológicas. É um Rock Progressivo mais moderno, podemos assim dizer. Apesar de notar muitas referências, principalmente do Prog Inglês e italiano, a banda soube dar o seu teor próprio. Portanto, ouçam com bastante atenção esse disco e permita-se viajar nas linhas do tempo nas quais este álbum vai te levar.

A text by @lukaspiloto7twister

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Autor: Luc Rhoads

Um grande apaixonado por música e aventuras. Carioca, estudante de Educação Física, professor de inglês e vascaíno doente.

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