O Disco Que Previu Uma Década – 40 Anos de “London Calling”

Existe um seleto grupo de álbuns que extrapolam qualquer limite estilístico e histórico, sendo frequentemente (e, geralmente, não à toa) reverenciados e citados como “maiores de todos os tempos”. Esse é o caso do aniversariante de hoje, a obra-prima do The Clash, “London Calling”.

O disco foi lançado num momento em que havia um certo declínio do movimento Punk Inglês, quando a nova onda era o emergente Pós-Punk de grupos como Joy Division, PiL ou Gang Of Four. Mas é claro uma das bandas da linha de frente dos rebeldes britânicos não perderia sua relevância.

Após serem acusados de “limpar” seu som com o excelente “Give ‘Em Enough Rope” (1978), eles se aventuram em solos americanos, fazendo shows de abertura para alguns nomes do quilate de Bo Diddley, ocasionando um crescente fascínio pela música tradicional americana, e as raízes do Rock ‘N’ Roll. Essa seria uma das faíscas para conceber um caleidoscópio sonoro nunca antes visto em uma banda Punk.

A capa, que mostra o baixista Paul Simonon prestes a estraçalhar seu Fender Precision, com traços do auto-intitulado disco de Elvis Presley (1956) em seu design, já nos alerta da anarquia musical que ouviremos nos próximos 65 minutos, num disco duplo que demonstra como nunca a diversidade de influências captadas por esses antenados jovens de Londres.

O álbum se inicia com um tom de urgência, com a clássica faixa-título “London Calling”, onde o baixo retumbante de Simonon soa como um sino apocalíptico e marcial, enquanto Joe Strummer faz um retrato mordaz da Grã-Bretanha no período.

O Rockabilly aparece na versão divertidíssima de “Brand New Cadillac”. Já o Swing elegante de “Jimmy Jazz” demonstra o background Jazzístico do baterista Topper Headon, e um naipe de metais certeiro, que também figura na overdose do Soul de Nova Orleans “The Right Profile”, ou a grandiosa canção sessentista “The Card Cheat”.

A influência Jamaicana também é um elemento vital na sonoridade do disco. Reggaes como a versão de “Revolution Rock”, ou a baixaria à la Aston Barrett da densa “The Guns Of Brixton” (composta e cantada pelo próprio Simonon) são prova disso. Há também muito Ska, na ode aos Rude Boys Jamaicanos “Rudie Can’t Fail”, ou na dançante “Wrong ‘Em Boyo”, mostrando que também havia uma pitada de “2 Tone” nesse caldeirão musical.

Os grandes hinos Punk não poderiam faltar, indo da influência Rock ‘N’ Roll de “Hateful”, ou a pulsação de “Clampdown”. Mas, a crescente consciência Pop da dupla Strummer/Jones, aliada a um som mais Pós-Punk nos rende verdadeiras pérolas. A melodia inerente à canções como “Spanish Bombs”, “I’m Not Down” ou “Lost In The Supermarket” (com um trabalho espetacular de Mick Jones) foi nítida influência para toda a geração New Wave.

O encerramento é cheio de Groove, com “Train In Vain” (originalmente não-listada entre as faixas), uma joia Pop, contando com uma gaita extremamente marcante, e, simbolicamente, abrindo a vindoura década de 80.

“London Calling” é, facilmente, um dos discos mais icônicos da história. Aqui, o Clash transcende o Punk, mostrando que tanto sabe fazer Rock, quanto Reggae, Soul, tudo amarrado numa roupagem Pop e moderna, que acabaria definindo muitos dos caminhos da música oitentista, e transformaria a banda em um dos maiores fenômenos de sua época!

Autor: Caio Braguin

16 anos, baterista, aficionado por música (e todas as formas de arte) desde o berço. Música é minha vida!

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