Metallica e Orquestra: os 20 anos de S&M

Os anos 90 foram, para o Metallica, um período de grande fama e sucesso, que começou com o lançamento de seu disco mais famoso “Metallica”, o famoso “Black Album” de 1991, continuou com 3 anos de longas turnês tocando em estádios e grandes arenas ao redor do mundo (resultanto na box Live Shit: Binge & Purge), e depois com dois discos completamente inusitados, muito mais puxados para fora do Metal, diferente da tradição da banda, os excelentes “Load” (1996) e Reload (1998), que trouxeram mais grandes hits para a banda. Em 1999, temos um disco duplo de covers “Garage Inc.”, e o aniversariante de hoje: S&M. Symphony and Metallica, um disco ao vivo com a San Francisco Symphony Orquestra, que se tornou o disco ao vivo de Rock/Metal com orquestra mais bem-sucedido até o momento, e que provou-se mais uma das iniciativas de inovar que a banda fez sem se preocupar com o resultado, aplicando a filosofia que James Hetfield tanto fala de “fazer a música para nós mesmos”. O disco é um grande registro de um grande show, que muitos não dão grande valor, mas eu considero um dos melhores shows da banda (se não o melhor), e descreverei de maneira livre e muito subjetiva este registro aqui.

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Tudo começa quando Michael Kamen, o regente, entra e apresenta a orquestra, conta para a entrada da orquestra, e ouvem-se as primeiras notas de The Ecstasy of Gold, música do famoso maestro cinematográfico Ennio Morricone, que a banda usa como introdução desde 1983 para seus shows, e que desta vez foi executada pela orquestra. Logo em seguida James puxa o dedilhado para a introdução de The Call of Ktulu, a instrumental que fecha o disco “Ride The Lightning”, de 1984, e a medida que a música vai crescendo, o enriquecimento dos arranjos da orquestra amplifica a emoção passada pela música ao extremo, sem contar com a excelsa atmosfera criada na presença dos “Four Horsemen” em palco com uma orquestra. Na seguida, temos Master of Puppets, na minha opinião a melhor música da banda, que se reveste com os tecidos dos metais e cordas para uma de suas melhores performances na história. Assim que James começa a cantar, já se percebe o uso ostensivo de compressão e correção de afinação dos vocais, fora takes re-feitos em estúdio, que na opinião de muitos é um ponto negativo, mas na minha opinião não ofusca de maneira nenhuma o brilho do disco.

James então brinca “vocês já ouviram aquela sobre a banda de rock que queria tocar com a orquestra?”, e introduz “Of Wolf And Man”, novamente brincando “esta noite se chama Of Wolfgang And Man”, e a introdução ja começa com tudo nos trazendo ao riff principal, que ganha um peso tamanho com a adição da orquestra. A música foi muito tocada muito ao longo dos anos 90 ao vivo, e representou o Black Album mais “b-side” no S&M. Na sequência, a melhor performance de “The Thing That Should Not Be” ao vivo sem dúvida, completamente empoderada e pesada com o apoio da orquestra e os timbres de guitarra magníficos do disco, mas o grande destaque é para James e seus vocais malignos e agressivos, que dão à música um destaque tremendo no set (Kirk também arregaça no solo desta música de maneira devastadora). No “outro” da música, Kirk faz um dramático solo de Slide Guitar, e a banda puxa Fuel e The Memory Remains a todo vapor, trazendo músicas (as únicas) do Reload (1998). Jason assume ai pela primeira vez no disco seu posto de grande backing vocalista para James, além da presença de palco monstruosa que conduziu o público no épico final de “The Memory Remains”.

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Ai quando você acha que tudo está bom demais para ser verdade (e está mesmo!) a orquestra começa a arpejar “No Leaf Clover”, uma das duas músicas escritas para o show, e um dos grandes destaques do disco também, pessoalmente, é uma das minhas favoritas da banda. A letra e o clima dessa música combinadas passam algo inexplicável e muito forte. E então é hora de algumas músicas do “Load”. Lars brinca com a bateria, olha para Kirk, e ele começa com o dedilhado de “Hero Of The Day”, que passa a saudade daqueles para quem as “cortinas queimam” trazida pela letra com um impacto imensurável nesta versão. Devil’s Dance vem com o riff pesado dando um tapa na cara de todos. Mais vocais expressionistas de James por aqui, e a bateria clássica de Lars nas músicas da fase anos 90 carrega a música junto com a parede de guitarras. Bleeding Me termina a sequência com uma daquelas performances que deixam muito a marcar. “This thorn in my side is from the tree I planted”, canta James mencionando Lord Byron, no verso que cresce até refrão gigante. Kirk assume a slide guitar novamente para um solo lindo, e o refrão vem com tudo, e por ai vai até o fim desta música que encerra o primeiro disco no S&M se você está no vinil.

O segundo disco começa com Nothing Else Matters, a balada mais popular da banda, que ganha uma belíssima versão. Depois, voltamos ao “Load” com “Until It Sleeps”. Com o baixo marcante, temos mais uma grande versão, que é seguida pelo baixo também marcante (e como!) de “For Whom The Bell Tolls”, uma música mais “early” na carreira da banda, na qual Lars senta a mão na bateria e temos um momento muito empolgante. Kirk capricha com mais um momento grandioso e dramático, James conversa mais um pouco com o público e seguimos para a segunda música escrita para o disco, “Human”. Não tão boa quanto “No Leaf Clover”, ela é ainda assim sensacional e de certa maneira até subestimada em comparação. O hino “Wherever I May Roam” vem com tudo para mais um grande momento. Mas calma que ainda não chegamos ao fim, em seguida teremos “The Outlaw Torn”, mais um destaque daqueles (posso ser muito redundante, mas é necessário deixar claro). Sad But True faz a sequência trazendo mais um grande hit, One vem para acabar com qualquer sinal de respiração e batimento cardíaco que você ainda tinha, e Enter Sandman para chamar os não-fãs da banda todos juntos para cantar e serem felizes.

E para acabar finalmente “Battery comes crushing” com tudo para fechar esse disco tão incrível, que multiplica a qualidade ao vivo desta banda tão incrível exponencialmente, mostrando o poder da música, do Heavy Metal, do Metallica. De quatro caras que tocavam na garagem em 1981, e que em 1999 tocavam com uma orquestra os seus maiores clássicos com o mesmo amor e vontade por Heavy Metal muito alto. Neste ano de 2019, o S&M ganhou uma reedição em setembro no Chase Center em San Francisco, e foi para os cinemas em outubro com músicas do S&M original além de músicas que a banda lançou desde então com versões com orquestra. Lembram dos quatro homens de 1999? Eles agora estão com o tempo se tornando senhores mas ainda assim não param. É lindo ver o Metallica respirando após todos esses anos. É lindo comemorar os 20 anos de S&M!!!

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Autor: allanfranzner

Guitarrista, amante e entusiasta da música, principalmente do rock n' roll!

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