50 anos de “Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)” THE KINKS

O sétimo álbum de estúdio da banda inglesa The Kinks lançado em outubro de 1969, está fazendo hoje 50 aninhos. Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire) O segundo disco conceitual dos Kinks vinha num ano sobrecarregado de discos de protesto, hippies e a guerra do Vietnã, mas a pergunta é: ‘como uma banda pode fazer um ‘segundo’ álbum conceitual melhor que ‘The Village Green Preservation Society’? que queria preservar “o Pato Donald, xícaras de porcelana e a virgindade… a resposta é que o disco foi um falho comercial no mercado americano mas ainda sim os Kinks entraram na Billboard chart americana com a música ‘Victoria’.

Alguns dizem que o álbum é uma ópera rock, mesmo alegando ser uma versão barata do Tommy do Who lançado no mesmo ano, mas isso não é verdade porque Ray Davies já disse que o disco é um “Documentário”, e se ele disse é verdade, porque afinal, ele que escreveu as músicas, não? mas ainda assim o disco tem traços de opera, mininovela, drama grego ou o que você quiser chamar, composto de pelo menos três vozes dialogando uma com a outra ao contar a história.

Como personagem há a voz de Arthur Morgan, um cidadão Britânico mediano que ganha a vida instalando carpetes no chão (ele está simbolicamente retratado de joelhos a maior parte do tempo). Arthur tem uma esposa chamada Rose, e ele está confuso ao ver tudo o que conhece em processo de constantes mudanças, incluindo seu filho Derek que migrará para a Austrália com sua esposa, Liz e seus dois filhos, Terry e Marilyn (netos de Arthur).

Tem a voz do povo gentil da classe alta que ao mesmo tempo é bastante cruel e ri das pessoas simples como Arthur, por acharem elas estupidas de mais pra entender que estão sendo exploradas pelas classes mais altas que ele tanto respeita. Nos vocais toda banda esteve presente incluindo Ray, Dave, Mick e o novo baixista John Dalton, que cantam como coro quando falam com os personagens e comentam eventos.

A primeira música, “Victoria“, tem todas as características acima. cantada com entusiasmo (ou seria deboche?) um hino glorioso orgulhoso (e provavelmente irônico) sobre a maior rainha que Arthur já conheceu, enquanto o próprio Arthur canta para o império:

“Eu nasci, tive sorte (I was born, lucky me)
Na terra que Eu amo” (In the land that I love)
[…]
“Terra de esperança e glória!” (Land of hope and glory!)

Ray Davies conseguiu traduzir a vida das classes baixas dentro do “Império aonde o sol nunca se põe” (The Empire on which the sun never sets) em um disco de Rock maravilhoso aonde os três mundos divididos por classes sociais se intercalam.

A Inglaterra Vitoriana tinha uma idéia clara de que ingleses corajosos deveriam vasculhar todos os cantos do império (que é praticamente o mundo todo) matar e empalhar tudo o que fosse possível encontrar para uma exibição exótica de vida selvagem/ natureza morta para o público britânico desfrutar nos vários museus da Inglaterra. E isso se reflete na música “Yes Sir, No Sir”, que é novamente a voz do inglês espiritualmente morto que pede permissão para “respirar”. E então todas aquelas pessoas ricas desagradáveis revelam a verdade:

Você está do lado de fora e não há admissão (You’re outside and there’s no admission)
Para a nossa peça.” (To our play)

Como em todas as canções de Ray Davies, a vida é de fato irônica, abordada de forma inteligente e certamente incerta, como o próprio Ray disse: “um definitivo talvez” (definite maybe).

Na canção “Some Mother’s Son” é uma das músicas anti-guerra mais intransigentes já registradas que expõe que para cada soldado morto é o filho de uma mãe que morre e a intensa tristeza que isso causa, mas é sobreposta à música anterior, que incluía risadas cruéis dos elegantes das classes altas que cantam:

Se ele morrer mandaremos uma medalha para sua esposa” (if he dies will send a medal to his wife).

As músicas: “Drivin’”, “Brainwashed” e “Austrália” têm em comum aquela temática que os ricos jogam migalhas para o resto de nós, e nós as sugamos, na esperança de sermos aceitos pelas próprias pessoas que riem de nós com desprezo, porque adoramos essas migalhas.

A essência da música “She’s Bought a Hat Like Princess Marina” é que somos todos “Marias vai com as outras” correndo em direção à beira do penhasco só porque alguma celebridade disse que deveríamos pular, com a promessa de que poderíamos “sorrir como um verdadeiro milionário“.

Drivin’” abrange o tema que se você não aguenta mais a vida dura de trabalhador basta você pegar o carro da família e dirigir pra bem longe pra limpar a cabeça, que enquanto “Brainwashed” contradiz esta primícias por que por mais que Arthur saiba que é explorado e tente melhorar sua vida, ele sabe que nunca vai ser capaz de fazê-lo uma vez que tem uma família pra sustentar e contas pra pagar então não lhe resta saída a não se se abaixar a cabeça e agachar de joelhos enquanto instala carpetes para os ricos que obviamente o pagam pouco por estes serviços. Durante as consequências da Segunda Guerra Mundial “Austrália” idealiza o continente como um lugar mítico e paradisíaco sem guerras e sem vícios em que o filho de Arthur, Derek (com sua esposa e filhos) está emigrando, lá “Todo mundo anda com um sorriso perpétuo no rosto e Surfam como fazem no EUA”.

Agora se ‘Waterloo Sunset‘ é a música mais bonita dos Kinks, “Shangri-La“, certamente, é a mais forte disse: John Mendelssohn (criador da campanha God Save the Kinks e autor do livro The Kinks Kronikles) “Shangri-La” que é também o nome da sua casa evolui do folk inglês para o hard rock retratando o vazio da vida superficialmente confortável de Arthur em sua casa.

Todas as casas na rua têm um nome (All the houses on the street have got a name)
Porque todas as casas da rua são Idênticas” (‘Cause all the houses in the street they look the same)

Shangri-La” mais uma vez, entende Arthur:
Aqui está sua recompensa por trabalhar tanto (Here’s your reward for working so hard)
Pelos banheiros do quintal.” (Gone on the lavatories in the back yard)
[…]
Você alcançou o topo e simplesmente não pode subir mais” (You’ve reached your top and you just can’t get any higher)

Mas Arthur vive em um mundo sombrio com “os mesmos potes de chaminé, os mesmos carros pequenos, as mesmas vidraças” (Same chimney pots, same little cars, same window panes). E a música, assim como a salva inicial de “Victoria”, é cheia de força e drama, talvez do saudasismo e a expectativa de Arthur de tempos melhores.

A resolução do povo britânico durante a Segunda Guerra Mundial em “Mr. Churchill Says” e as privações que marcaram o período de austeridade após a guerra e a morte de seu irmão na Guerra. Com um tema subjacente de nostalgia, as músicas descrevem a Inglaterra que Arthur conhecia, “Victoria”, “Young and Innocent Days” e “Nothing to Say”, expressam a vontade e o desejo de dias melhores ou apenas os simples jantares de domingo com a família.

“Todas as casas na rua têm um nome (All the houses on the street have got a name)
Porque todas as casas da rua são iguais” (‘Cause all the houses in the street they look the same) [Shangri La]

A capa interna do LP de ‘Arthur’, mostra a rainha Victoria segurando uma casa com um Arthur Morgan lá dentro. A inserção, junto com o restante da arte do álbum, foi criada por Bob Lawrie. Que por sinal tem um estilo bem parecido com o de Terry Gilliam que fazia arte e as animações do ‘Monty Python’s Flying Circus’ para a televisão Britânica.

Apesar de receber uma cobertura positiva na imprensa de Rock Americana, com artigos publicados em revistas como Fusion e The Village Voice, os Kinks reapareceram nas Billboard chart com a música ‘Victoria’ que atingiu número 62 dois anos desde a última vez em 1966 com “Sunny Afternoon”. ‘Arthur’ vendeu menos de 25.000 cópias nos EUA.

LADO 1
1 – Victoria
2 – Yes Sir, No Sir
3 – Some Mother’s Son
4 – Drivin’
5 – Brainwashed
6 – Australia

LADO 2
1 – Shangri-La
2 – Mr. Churchill Says
3 – She’s Bought a Hat Like Princess Marina
4 – Young and Innocent Days
5 – Nothing to Say
6 – Arthur
Todas as musicas compostas por Ray Davies

A história é parcialmente inspirada na irmã mais velha dos irmãos Ray Davies e Dave Davies, Rose, que emigrou para a Austrália em 1964 com seu marido Arthur Anning. Sua partida devastou Ray Davies e o inspirou a escrever a música “Rosy Won’t You Please Come Home”, incluída no álbum de 1966, Face to Face. O personagem principal do álbum, o fictício Arthur Morgan inspirado pelo cunhado, Arthur Anning, cuja situação da família no cenário pobre de oportunidades ruins da Inglaterra pós-guerra é retratado ganhando a vida colando carpetes no chão.

Arthur Morgan mora no subúrbio de Londres, em uma casa chamada Shangri-La, com um jardim, um carro, uma esposa chamada Rose e um filho chamado Derek, casado com Liz, e eles têm dois filhos muito bons, Terry e Marilyn. Derek, Liz, Terry e Marilyn estão emigrando para a Austrália. Arthur tinha outro filho, chamado Eddie. Ele recebeu o nome do irmão de Arthur, que foi morto na batalha do Somme. O Eddie de Arthur também foi morto – na Coréia.

Ray Davies comentou mais em sua autobiografia, X-Ray, que Arthur Anning uma vez o disse que sabia que ‘Arthur’ havia sido inspirado nele, recordou da casa e Ray Davies pediu desculpas e disse se sentir culpado por usá-lo como objeto para sua música, mas Anning disse estar lisonjeado.

Arthur (ou o declínio e a queda do Império Britânico) estende os temas orientados para os britânicos da Village Green Preservation Society, contando a história e decisão de um homem de Londres a se mudar para a Austrália durante as consequências da Segunda Guerra Mundial. É um ciclo de canções detalhado e amoroso, capturando as minúcias da vida suburbana, o efeito entorpecedor da burocracia e os horrores da guerra. A música torna as palavras mais profundas, e as músicas nunca se afastam muito do assunto do álbum, tornando Arthur um dos álbuns conceituais mais eficazes da história do rock, além de um dos melhores e mais influentes registros pop britânicos de sua época.


por Gustavo Montagnini

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