“Lóki”: 45 anos que Arnaldo Baptista transformou sua dor em um grande clássico da música brasileira

O maravilhoso legado dos Mutantes (Na sua formação clássica) durou cinco brilhantes discos, e foi encerrado com o espetacular (E pessoalmente meu preferido) “Mutantes e Seus Cometas no País dos Bauretes” (1973). Logo depois, Arnaldo se viu numa situação em que teria que continuar seguindo em frente, porém agora por si mesmo.

Porém, naqueles tempos, Arnaldo começaria a enfrentar um terrível quadro de depressão profunda, muito ocasionada pelo rompimento com o grande amor de sua vida na época: Rita Lee. E numa espécie de terapia musical, Arnaldo colocou tudo isto para fora em um disco que soa desconcertante até os dias de hoje. Em seu primeiro disco solo já fora dos Mutantes, “Lóki” (1974) era o sinal de que ele precisava de ajuda para sair de um caleidoscópio de delírios paranóicos com relação a uma invasão alienígena, e acima de tudo, sobre toda a dor, aquela dor estonteante com o término de sua relação amorosa com a musa de sua vida. E o que todo grande artista se presta a fazer quando se encontra em um momento tão dolorido assim? Simplesmente usa da arte para “expulsar” toda a dor, no caso de Arnaldo obviamente, a música, em forma de canções, e que canções viu! Pois foi isso justamente o que Arnaldo fez em “Lóki”. Pegou toda a sua angústia e as transformou em canções sublimes, que resultaram num dos grandes discos da história da música brasileira, e que exatamente hoje, está completando 45 anos de lançamento.

“Lóki” também pode ser visto como um exemplo claríssimo de uma época em que a música era encarada muito mais como uma manifestação artística genuína e singela, do que apenas um meio de enriquecer mais. E isto não apenas do ponto de vista do artista em si, mas também pela visão de quem comandava as gravadoras naquelas ocasiões. Foi justamente um executivo de gravadora, o lendário André Midani, o todo poderoso presidente da Philips, que ousadamente decidiu lançar o disco de Arnaldo, mesmo sabendo que seu potencial comercial era praticamente nulo. Felizmente, ele e o grande produtor Roberto Menescal tiveram o sábio discernimento que “Lóki” poderia salvar a vida de Arnaldo, ou seja, era o valor humano acima da grana e do sucesso comercial. Como sempre deveria ser, diga-se de passagem.

Em cada faixa de “Lóki”, Arnaldo se dilacera em carne viva, exibindo uma mente já perturbada, abandonada, e um espírito já imerso na solidão, profundamente triste. Para as gravações, seus ex-parceiros de Mutantes foram convidados, Dinho na bateria, e Liminha no baixo, Rita ainda fez backing vocal em duas composições, e o genial maestro Rogério Duprat fez os arranjos de orquestra em outras duas. O disco todo foi composto sem muitos ensaios, com exceção de duas músicas com orquestra, outra com um piano moog, e outra onde Arnaldo toca sozinho com um violão. O álbum é um magnífico caleidoscópio esquizofrênico de Rock and Roll 50s, Bossa Nova, e MPB desgovernada, onde a obra praticamente inteira foi basicamente calcada a piano, voz, e a “cozinha” baixo e bateria, sem nada de guitarras elétricas.

“Lóki” é um dos melhores exemplos de um grito primal na música popular. Arnaldo Baptista, com apenas 25 anos na época, estava no auge de sua genialidade completa, talvez até mais do que ele já esteve nos Mutantes. Compôs e gravou um disco incrível e atordoante. Um álbum autobiográfico com letras intensas e doloridas com músicas aparentemente simples e cativantes de Rock and Roll, como “Será Que Eu Vou Virar Bolor?” e “Vou Me Afundar na Lingerie”, e ainda com momentos bem melancólicos e sobretudo muitíssimos inspirados como “Te Amo Podes Crer”, e “Desculpe” (Poucas coisas na música brasileira soa tão doloroso e lindo quanto isto). “Lóki” foi e ainda é frequentemente comparado com as obras contemporâneas de John Lennon, David Bowie, e Elton John pelos críticos estrangeiros, e é certamente uma das coisas mais belas e geniais já criadas por um artista musical brasileiro.

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Autor: Felipe Silva

28 anos, paulista, corinthiano, e o mais importante, consumidor compulsivo de música! Rock, Soul, Funk, Blues, Jazz, MPB, que a música boa seja exaltada independente de gênero. God bless you all.

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