“Jaime”: A bela e dolorosa visita ao passado de Brittany Howard

Brittany Howard, a maravilhosa voz de uma das bandas mais legais da atualidade, “Alabama Shakes”, retorna em 2019, mas desta vez agora para lançar seu primeiro disco solo, intitulado de “Jaime”. Brittany havia anunciado há um tempo que gostaria de fazer um disco solo para superar o bloqueio criativo que estava passando no processo de compor material novo para a banda, mas é fato que ninguém que acompanha o trabalho da cantora de perto, imaginaria que o resultado sairia como o que ouvimos em “Jaime”.

No lugar do Rock and Roll cheio de Soul, e influências setentistas com guitarras fortes, cozinha pesada, e vocais viscerais e rasgados, Brittany nos traz em “Jaime”, guitarras com mais sutileza, e “esconde” o poderoso vozeirão que tem, deixando seu lado mais Rock de lado, para apostar com muita competência numa sonoridade mais NeoSoul e R&B Contemporâneo. Porém, o que ela entrega aqui neste disco pode ser encarado como algo ainda mais sincero, tanto pelas interpretações mais contidas, quanto pelas letras mais introspectivas e auto reflexivas. O álbum pode se tornar impactante para os fãs não só por se diferenciar bastante de seu trabalho com o “Alabama Shakes”, mas também por revelar um lado mais “secreto” de Brittany, e uma artista que não tem medo de subverter o próprio talento no canto, para interpretar letras extremamente pessoais com o devido tratamento mais intimista da qual elas merecem ser cantadas, afinal, “Jaime” fala sobre experiências ruins com racismo e emoções à flor da pele, num caleidoscópio sonoro que carrega muitas influências de Prince, D’Angelo, Sly Stone, e Grace Jones.

A música presente neste álbum não podem ser consideradas exatamente convencionais e acessíveis para os ouvintes de um Soul/R&B mais tradicional. Ao longo do disco, com muito talento e um domínio invejável, Brittany acelera seu canto enquanto atrasa a fluência rítmica das canções, e se preocupa em criar atmosferas densas e noturnas, para falar de experiências e memórias dolorosas. O próprio título do disco, “Jaime”, faz honra ao nome da irmã da cantora, que faleceu precocemente aos 13 anos de idade.

Falando sobre os destaques da obra, logo de cara percebe-se que compor e gravar “Jaime”, deve ter sido um duro processo de revisitar o passado. Na abertura com “History Beats”, temos um poderoso beat meio Funky/Rap, onde Brittany deixa claro que tais dolorosas lembranças são involuntárias. Na excelente pegada R&B de “He Loves Me”, Brittany ousadamente canta sobre propor um “duelo” com a religiosidade, porém sem desacreditar de Deus. Enquanto que no delicioso e acústico balanço Soul de “Stay High”, Brittany admite sem receios que gostaria de ficar chapada por mais tempo. Mas o momento mais inspirado do disco encontra-se justamente na faixa mais minimalista da obra, “Short and Sweet”, num maravilhoso clima Jazzy, acompanhada apenas por uma delicada e singela guitarra, Brittany canta como se estivesse no paraíso na sala ante Deus. É aquele momento de segurar as lágrimas devido o tamanho feeling exalado nesta faixa. E o disco termina em alto nível com “Run To Me”, explorando com excelência instrumentos mais eletrônicos e modernos, com elementos que dão um tom climático sensacional à faixa.

Quando se termina a audição de “Jaime”, nota-se com clareza que a proposta musical apresentada aqui jamais se encaixaria com o Alabama Shakes. Com este álbum, Brittany Howard fez do ato de compor uma experiência de desabafo, como se tivesse escrito um diário musical para lidar com seu passado e sua história, que não se resume somente à sua representatividade como uma mulher negra que canta Rock and Roll. O veredito que posso dar é um só: Com certeza é um dos melhores e mais emocionantes discos lançados em 2019.

Autor: Felipe Silva

28 anos, paulista, corinthiano, e o mais importante, consumidor compulsivo de música! Rock, Soul, Funk, Blues, Jazz, MPB, que a música boa seja exaltada independente de gênero. God bless you all.

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