O Jazz Cósmico de “Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery”

John Coltrane, Sun Ra, Tangerine Dream, Hip Hop, Blade Runner. Podem parecer elementos sem relação alguma, mas não para o trio britânico de Jazz The Comet Is Coming. O grupo, formado por Shabaka Hutchings (líder do Sons Of Kemet, que lançou um dos melhores discos de 2018) no saxofone, Dan Leavers nos teclados e Max Hallett na bateria, condensa em seu segundo disco, “Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery” (2019), todas essas influências.

“Because The End Is Really The Beginning” já nos mostra logo de cara uma das muitas facetas da sonoridade do trio, lotada de sintetizadores. numa aura espiritual e cósmica (acentuada pelo saxofone de Shabaka).

Os elementos de Hip Hop aparecem em “Birth Of Creation” com uma marcante linha de saxofone. É uma faixa com muito groove, mas numa roupagem moderna e experimental.

“Summon The Fire” é uma das faixas mais instigantes do disco. Sua sonoridade me remete ao Krautrock (movimento de Rock experimental alemão nos anos 1970), especialmente em sua levada de bateria, semelhante à icônica e minimalista “Motorik”, característica do movimento. Ao mesmo tempo, as influências eletrônicas (especialmente do Drum & Bass) se fazem presentes, criando um som único.

Nessa viagem cósmica, somos levados à densa “Blood Of The Past”, com um riff pesado de saxofone/sintetizadores, onde Shabaka atinge novos territórios em sua improvisação. Aqui, elementos de Rock Psicodélico aparecem, e temos um contundente verso em spoken word feito por Kate Tempest. É minha faixa favorita do disco, resumindo bem a indefinível sonoridade do grupo.

O disco também possui momentos mais tranquilos, como em “Timewave Zero”, com um groove hipnotizante. Entretanto, essa calmaria desaparece assim que o intenso solo de saxofone se inicia, numa explosão fantástica.

A última faixa, “The Universe Wakes Up” termina o álbum com um clima espiritual e viajante, onde Shabaka Hutchings mostra que é um dos grandes nomes do Jazz Moderno (lembrando, em muitos momentos, John Coltrane em seus momentos mais contemplativos).

A essência do Jazz é a inovação, a quebra de fronteiras. Os ingleses do The Comet Is Coming fazem isso muito bem, juntando as influências mais clássicas ao som mais moderno e eletrônico (Impulse Records, como sempre, na vanguarda do Jazz). Se você é fã de música legitimamente inovadora, mergulhe na viagem sonora de um dos melhores discos desse frutífero 2019!

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Autor: Caio Braguin

16 anos, baterista, aficionado por música (e todas as formas de arte) desde o berço. Música é minha vida!

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